Reencantamento para quê?
Por uma Crítica Encarnada da Religião
Legenda: foto de um grupo de scholars de Fenomenologia da Religião prontos para reencantar o mundo e o salvar do terrível Dr. Habermas.
(Meu tom aqui é informal, como sempre)
Muito se fala na Internet sobre uma suposta necessidade de reencantamento do mundo. Como brasileiro, principalmente da faixa social onde estou, sempre achei esse papo meio esquisito, meio deslocado. Em um contexto de guerra fria (e muitas vezes quente) religiosa entre o fanatismo cristão e as religiões afro-brasileiras e afro-indígenas sempre me pareceu que estávamos mais no meio de uma batalha de encantos do que em um mundo onde o secularismo simplesmente venceu.
Ao ter contato com o ensino superior comecei a entender que pelo menos em alguns mundos o secularismo (na forma de um materialismo raso e de uma racionalidade burocrática) realmente parecia em alguma medida ter triunfado. Na época eu era meio babaquinha da cabeça (conservador) e curtia umas narrativas de decadentismo espiritual civilizacional, então até comprei o diagnóstico. Porém, sei lá, sempre havia alguma coisa que não colava quando eu voltava para casa e continuava a habitar um “mundo assombrado por demônios” tal como dizia aquele físico lá que interpretou de forma completamente torta os filosófos jônicos no documentário dele que eu vi na Internet.
Na época da faculdade li muito Hans Jonas, fiz meu TCC sobre Ontologia e Ecologia e sim, eu acredito que uma cosmovisão antropocêntrica e mecanicista contribui para o nosso atual grau de colapso ecológico. Mas não é só ela que está em jogo, não é como se ela estivesse lá sozinha, triunfante, como único operador por detrás das engrenagens do nosso suicídio civilizacional.
Ok, voltando, muitos dos habitantes do mundo desertificado se voltaram para o espiritual como um refúgio, e está tudo bem. O problema é quando essa busca se torna um "reencantamento" genérico, uma fuga para um eixo simbólico-espiritual que acredita resolver todos os nossos problemas no plano das ideias, ignorando que a realidade é feita de carne, suor, sangue e, sobretudo, de disputas de poder que INCLUEM as potestades espirituais para quais estas pessoas pedem auxílio, socorro e salvação. Não, não é somente um Deus que pode nos salvar.
Como religioso, acho necessário ter uma visão não-ingênua da religião. E essa visão crítica, radicalmente autocrítica, precisa ser fomentada primariamente de dentro das próprias tradições religiosas. Não como um ataque externo, mas como um exercício de responsabilidade intelectual e espiritual.
Toda religiosidade possui, em algum grau, a capacidade de revisão. É possível reconhecer doutrinas que se tornaram deletérias e se engajar na correção. No entanto, esse gesto, que deveria ser saudável, é frequentemente sabotado pela ficção de que a correção é simplesmente um "retorno" a um estágio mais genuíno e puro da religião. Essa visão repete, mesmo quando movida pelas melhores intenções, a estrutura da neurose heresiológica. Ela cria uma narrativa onde existiu uma Idade de Ouro imaculada, corrompida posteriormente por agentes externos ou maus fiéis. A consequência é que a religião “em si”, ou ainda a religião da qual podemos falar (sua estrutura doutrinária, seus textos sagrados, suas noções de canonicidade e sua lógica de poder) fica isenta de qualquer escrutínio. A culpa recai sempre sobre os "maus seguidores", a "corrupção humana", como se a instituição pairasse imaculada acima da história.
A religião não surge ex-nihilo num espaço de pureza celestial, ela está envolta nas tensões da história desde sua concepção. Mesmo que se preserve um núcleo de fé num componente divino, a não há religião da qual podemos falar sem tais mediações. As proposições teológicas não caem do céu prontas. Por exemplo, as decisões conciliares do Cristianismo não são meras atas de reuniões com o Espírito Santo, mas são frutos de processos históricos tensos, envolvendo disputas políticas, interesses de poder, exclusões e ambiguidades mediadas pela mão humana e pelas estruturas mais amplas onde a mesma está incluída, com todas as suas imperfeições, contradições e jogos de poder.
(Dica: tenha muita desconfiança de teólogo da libertação que tem muitos problemas com análise histórico-crítica)
E repetindo aqui: eu sou uma pessoa religiosa, eu não só acredito mas vejo e escuto coisas por aí que me fariam ser um esquizofrênico aos olhos de um materialista. Mas talvez precisemos de um “materialismo metodológico” as vezes para não sermos otários de um golpe forjado por nós mesmos, um desencantamento instrumental que nos dê um choque e nos faça repensar já numa clave espiritual: É realmente isso que os Deuses querem da gente mesmo?
O "reencantamento" ingênuo contra o qual me posiciono quer nos fazer acreditar que os problemas fundamentais da humanidade são somente de ordem simbólica, uma crise de sentido, uma falta de espiritualidade. Ignoram "espírito" também está encarnado, o dono da siderúrgica que está acabando com o seu bioma local é um católico devoto e o escrotão do Erdogan lá na Turquia é um Sufi, com uma visão super sacralizada de mundo.
Se o Espírito está encarnado, está inserido no campo de batalha das tensões do devir. Isso significa que as contradições sociais, econômicas e políticas não estão fora da Religião, esperando para corrompê-la: elas estão dentro dela, constituindo sua própria dinâmica desde o princípio.
Mas assim, é preciso superar tanto a visão ingênua da pureza E TAMBÉM a visão reducionista de certo marxismo vulgar (99% dos marxistas, sendo o 1% todos os meus amigos seguidores da verdadeira-linha-correta) que enxerga a religião como mero epifenômeno da infraestrutura econômica, um simples reflexo dos interesses da classe dominante. E veja, aqui nem precisamos abandonar o nosso materialismo metodológico, é só reconhecer que a religião é uma estrutura relativamente autônoma e dentro dela existem projetos de poder que não se resumem a servir a esta ou àquela classe.
Veja-se o exemplo do Vaticano. Flutuações ideológicas são esperadas: ele joga no campo que for mais conveniente para o seu projeto de poder e suas possibilidades de expansão. Pode flertar com pautas sociais quando isso lhe convém, mas sua lógica profunda é a da autopreservação institucional. Esperar uma "esquerda submissa" vinda dessa estrutura é ignorar que o poder de Roma é inquestionável em sua hierarquia. Uma hora ou outra, os "sacerdotes socialmente engajados" serão apunhalados pelas costas, suas pastorais enfraquecidas, e ninguém se revoltará pois a estrutura que os abrigou pode, com um simples decreto, desabrigá-los. Claro que isso não significa que a mudança seja impossível, a Teologia da Libertação não precisa ser um sonho morto. Mas uma teologia verdadeiramente libertadora, seja católica ou de qualquer outra tradição, não virá das "ovelhas obedientes" e sim daqueles que compreendem que a comunidade de fé é também um campo de disputa e que a autonomia de pensamento e ação é condição para qualquer transformação real.
Outra coisa, pessoas que pertencem a uma visão mítico-religiosa de mundo não estão em nenhum estágio de menoridade da humanidade. Não precisamos de tutela, nem de tapinhas nas costas que nos isentem da responsabilidade por nossas ideias e ações. Somos perfeitamente capazes de autorreflexividade, de olhar no espelho e identificar não só a imagem que queremos ver, mas também as marcas da história, do poder e da ambiguidade que nos constituem. A tarefa, portanto, é recusar esse sonho de uma pureza imaginária, mas assumir a religião como ela é: um dialógo (com Deuses e homens) marcada pelo sagrado e pelo profano, pela inspiração e pela disputa, pela beleza e pela sombra.
Fé é bom, mas é ruim quando fede mais (amigos estrangeiros não pegarão o trocadilho).

